20/07/2011

Living Proof

Living Proof
Buddy Guy
2010

Os últimos meses me tornaram um fã incondicional de blues. Desde meu contato com os DVDs do Crossroads Guitar Festival minha vida nunca mais foi a mesma. A paixão de adolescente por guitarras ressurgiu forte, a ponto de eu finalmente me tornar um ouvinte assíduo de blues. Desde então tenho procurado discos e mais discos do gênero e ando descobrindo artistas/discos realmente impressionantes.

Apesar disso, o caso do Buddy Guy é diferente. Já conheço sua música há tempos, visto que herdei alguns albuns do meu pai. Como tomei gosto por ouvir blues e vi no festival Crossroads que Buddy continua em plena forma, resolvi vasculhar a carreira do bluesman e descobri que ele tinha lançado um disco novo no ano passado.
Living Proof é, literalmente, a prova viva de que o homem continua em plena forma e confirma que grandes mestres sempre produzem grandes discos. O álbum, em geral, parece trazer justamente essa mensagem de que Buddy Guy continua mais apto do que nunca a fazer o autêntico blues. Com a faixa inicial 74 Years Young (trocadilho com a expressão de idade inglesa "years old") ele mostra que ainda é realmente jovem, com a diferença que carrega toda sua bagagem de vida.

O disco alterna o blues acelerado que se aproxima do rock, em faixas como "On The Road", "Too Soon", "Skanky", e a faixa homônima ao disco; e possui outras com o blues mais lento e mais marcado, como em "Thank Me Someday", "Guess What" e "Key Don't Fit". Além disso o disco conta com a bela faixa "Everybody's Got To Go".

Os destaques do álbum ficam por conta das faixas com participações especiais. Em "Where the Blues Begin" o blues fica mais "latino" com a participação de Carlos Santana e seu timbre inconfundível de guitarra. Mas a faixa que vale pelo disco inteiro é a indescritível "Stay Around A Little Longer", que une Buddy Guy ao rei do blues: B.B.King. A música é um agradecimento mútuo pela amizade e pela carreira que ambos guitarristas tiveram.

Enfim, o disco é indispensável para quem gosta de blues ou pretende gostar do gênero.

Stay Around a Little Longer (feat. B.B.King)

15/05/2011

Sociedade

Difícil é lidar com um sentimento de descrença em relação ao mundo.

Sabe quando de repente você começa a perceber de fato sua existência e a existência de tudo? Percebe seu coração batendo, seu pulmão respirando, percebe as pessoas andando apressadas pelas ruas, percebe os telefones tocando, os pássaros cantando e os aviões sobrevoando os céus. Em geral, é divertido quando você se dá conta de tudo tão conectado e funcionando freneticamente. O ruim é quando você entende que as conexões não parecem tão legais assim.

É muito desestimulante se deparar diariamente com tantas notícias ruins. Não que eu ache que a vida só devia ser feita de coisas boas. Ao contrário, isso é necessário. Os contrastes são o que fazem a vida mais encantadora. Afinal, como saber o que é alegria sem saber o que é a tristeza? O problema é quando isso se torna um excesso. Cada dia mais os noticiários, e mesmo os acontecimentos cotidianos, mostram como os homens estão enfrentando dificuldades em viver em sociedade. Agredir, desrespeitar, humilhar, trapacear e principalmente matar. A maioria das notícias que chegam a nós são desse tipo, sobre todos os tipos de homens. Não importa idade, sexo, profissão ou classe social. Os homens agem uns contra os outros o tempo todo e em todo lugar.

Começo a questionar quando Aristóteles disse que "o homem é um animal político/social". De fato, o homem precisa viver em sociedade. Mas me pergunto se isso não anda atrapalhando mais do que ajudando aos homens. Ora, quando tantos atritos que emergem do convívio social, não seria melhor que vivesse cada um no seu canto? Me pergunto por anda o Contrato Social suposto por Hobbes, Rousseau e Locke. As normas que deveriam regular a vida em sociedade já não parecem funcionar tão bem. E parece-me que Hobbes de fato estava certo. O homem é mau por natureza. Por que fora dessa ideia não consigo imaginar por que tanta desgraça.
Passo a entender melhor os homens criadores de "ilhas felizes". Tipo Thomas More com A utopia. A sociedade é tão cheia de problemas que é preciso criar um refúgio, mesmo que intelectual, para se acreditar em uma possibilidade de uma vida melhor, mais traquila. O comunismo de Marx me traz a mesma ideia. Que coisa mais bacana seriam esses homens vivendo em plena igualdade. E dentre tantos outros projetos de cidades felizes, ou mesmo de pessoas que tentaram ensinar a arte de conviver de maneira saudável, como Jesus. Nada disso parece fazer sentido hoje em dia.

"Society, have mercy on me
Hope you're not angry if I disagree.
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me."
(Society - Eddie Vedder)

O melhor é aquele que sabe enganar, é aquele que transpõe regras, é aquele que pega um carro e uma moto sem carteira e provoca um acidente, é aquele que se entope de álcool até não lembrar nem quem ele é, é aquele que de alguma forma prejudica o outro para estar acima dele.

Honestamente não me sinto confortável com essa aura de pessimismo. Como dizem, os jovens são o espírito revolucionário, são a possibilidade de mudança. E desse jeito eu me sinto como um velho derrotado na vida. Mas isso passa... é que com tanta coisa ruim, eu me permiti dialogar com o desânimo um pouquinho, para quem sabe me animar um pouco mais. Difícil é lidar com um sentimento de descrença em relação ao mundo.

"It's not if I believe in love
But if love believes in me
Oh, believe in me

At the moment of surrender
I folded to my knees
I did not notice the passers-by
And they did not notice me
(...)
I was speeding on the subway
Through the stations of the cross
Every eye looking every other way
Counting down till the pain would stop

At the moment of surrender
Of vision over visibility
I did not notice the passers-by
And they did not notice me."
(Moment of Surrender - U2)

11/04/2011

U2 360º Tour

(Estádio do Morumbi - 09/04/2011)





















Depois de 5 anos desde sua última aparição no Brasil, o U2 enfim retornou para nossa imensa alegria. O lançamento do disco "No Line On The Horizon" e a turnê U2 360º prometeram o surgimento de uma era inesquecível na carreira da banda. Se as turnês Zoo Tv  e Popmart  foram marcantes pelas gigantescas estruturas de palco e show, com a 360º Tour o U2 comprova que pode sempre superar seus próprios recordes.
O show impressiona antes mesmo de começar. Antes de entrar no estádio já é possível ver a "garra" (como ficou conhecido o palco). Mas a surpresa maior fica por conta de quem entra no estádio. A estrutura é gigantesca. O Morumbi ficou pequeno diante da imensidão da "garra". Uma impressão que tive, é que as fotos, por melhores que sejam, não conseguem captar a verdadeira sensação de grandeza daquele palco. Só vendo ao vivo para entender o que eu digo. Interessante pensar que aquele grande brinquedo da banda irlandesa está todo desligado quando você o encontra no estádio. Ele surpreende e toma conta do lugar quando está em ação.

Após muita fila e muito sol na cabeça, os portões finalmente abriram por volta das 15h30. Nesse momento o tempo virou do avesso e as nuvens tomaram conta dos céus. Parecia que o show ia ter um clima bastante úmido. Depois de muita espera e até então nada de chuva, os britânicos do Muse iniciaram o show de abertura. E tenho que reconhecer que a rapaziada tem talento. Com um show de uma hora, eles fizeram um belo aquecimento, mesmo debaixo da chuva que enfim caiu.

Com o fim do show do Muse, um relógio aparece no telão sugerindo uma contagem regressiva para o U2. Mais tarde descobrimos que foi um reloginho enganador que só aumentou nossa ansiedade.  Foi tão enganador que qundo acabou a contagem o relógio começou a se desmembrar. Mas nada aconteceu, exceto pelos gritos enlouquecidos ao redor do estádio. Perto do ínicio do show a chuva misteriosamente parou. Então o aquela musiquinha de fundo ficou mais alta. "Trem da Onze" faz o estádio cantar em coro e em seguida "Space Oddity" do Bowie anunciava a entrada dos irlandeses no palco, através da "janela" da espaçonave.

O show abre com "Even Better Than The Real Thing", sendo uma excelente descrição do que seria aquela noite. O público já delirava com a abertura, quando o riff de "I Will Follow" fez o Morumbi tremer de verdade. A explosão de energia tomou conta do estádio. A sequência ficou por conta das novas "Get On Your Boots" e "Magnificent". Em seguida, "Mysterious Ways"  permitiu o público fazer aquilo que o pessoal fez no DVD do Rose Bowl: balançar os braços acompanhando o solo do The Edge.

O rock não deu trégua. "Elevation" leva todos ao delírio, inclusive aquele população que conhece apenas meia dúzia de músicas da banda. Em seguida, a performance de "Until The End Of The World" é animadora. Destaques para o solo de guitarra e o momento em que Bono e Edge ficam nas pontes móveis do palco e tentam se tocar.

Depois dessa sequência de tirar o fôlego, o Bono conversa com público e faz a tradicional apresentação da banda. Dessa vez, o vocalista comparou cada um deles com tipo de pizza. Foi divertido. E então começa o primeiro momento muito emocionante do show. "I Still Haven't Found What I'm Looking For" coloca as 90 mil pessoas presentes para cantarem juntas. Ainda não sei explicar o que senti naquele momento, mas ali as lágrimas não perdoaram e tudo aquilo foi muito bonito de se ver e ouvir. Para manter o clima intimista, Bono e Edge fazem uma versão acústica de "Stuck In a Moment". É a verdadeira arte de transformar um espaço gigante em um cômodo aconchegante. Impressionante.

Outro ponto alto do show, uma fã finalmente é convidada para subir ao palco e lê abraçada com Bono o poema "Carinhoso" de Pixinguinha. Demasiadamente bonito e emocionante, o poema abre "Beautiful Day" e mais uma vez o estádio fica fora de controle. Em seguida "In a Little While" faz sua aparição e compensa a nós brasileiros que não pudemos contemplar a Elevation Tour. A música é finalizada com um astronauta declamando os últimos versos da música, direto de uma estação espacial. "Miss Sarajevo" protagoniza um momento belíssimo, principalmente quando Bono quanta o verso em italiano (na versão de estúdio, cantada por Pavarotti) e atinge notas de um verdadeiro tenor. Me arrepia só de lembrar.

O palco passa novamente a ser o destaque quando ele abre e "engole" a banda para o início de "City Of Blinding Lights". A música emociona principalmente com a iluminação feita pelo palco. Fachos de luz saiam da "garra", subiam aos céus e iluminavam as nuvens. Era uma visão maravilhosa. O show de luzes é seguido por "Vertigo" e U2 mais uma vez mostra porque são chamados de banda de rock. A divertida versão remixada de "I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" transforma o Morumbi em uma imensa boate e termina o show de luzes.

A sequência mais politizada do setlist não ficaria de fora, e "Sunday Bloody Sunday" é tocada em homenagem aos países do oriente médio. Em seguida, a quase desconhecida "Scarlet" e "Walk On" fazem a homenagem a líder ativista Aung Sang Suu Kyi. As músicas são acompanhadas por um "desfile" dos membros da Anistia Internacional. O público perplexo tem novamente a chance de se recuperar, já que a primeira parte do show termina.

Para o primeiro bis, um discurso do Bispo Desmond Tutu nos lembra que separar os homens em raças é uma grande besteira e dá início a "One". Obviamente boa parte do público acha que a música é romântica, então muitos não ligaram muito para a mensagem passada. Mas a performance da melhor música de todos os tempos é impecável e é seguida pelo melhor momento de qualquer show do U2. "Where The Streets Have No Name" emociona e leva o público ao delírio, sendo um dos momentos em que você pensa "como estou feliz por estar vivo e vendo isso". As lágrimas mais uma vez aparecem e o fim do primeiro bis também.

A caminho de encerrar o show, o segundo bis é iniciado com um videozinho engraçado de dois ETs e o baby da turnê Zoo Tv. Vestido com uma jaqueta cheia de LEDs, Bono assume o comando da nave espacial com um microfone em forma de volante e a banda inicia "Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me". A performance é genial, mas grande parte do público fica parada por não fazer idéia de que música era aquela. Mas o momento é bacana para quem é fã de U2, ou até mesmo para quem é fã de Batman. Em seguida, a balada mor da banda emociona o estádio e "With Or Without You" mostra porque não pode ficar fora do setlist. Aquele "oh oh oh" do finalzinho é emocionante demais. Por fim, "Moment of Surrender" fecha o show com chave de ouro, de maneira bela, emocinante e indescritível. A música é dedicada a todas as crianças vítimas da chacina no Realengo.

Ovacionados, os membros do U2 saem do palco com a missão cumprida e deixando sempre um gostinho de quero mais. A turnê U2 360º alcança novos recordes e banda cumpre com a promessa de "melhor show da Terra". Não há mais dúvidas, o nome da banda pode ser imortalizado tranquilamente ao lado das grandes bandas da história do rock e sustenta o status de melhor banda do mundo em atividade.

Eu poderia resumir o show de várias formas, e uma delas vem do próprio U2: 
"Only love, only love can leave such a mark
But only love, only love unites our hearts..."

(Magnificent - U2)

15/09/2010

Lápis de Cor

Caixas de lápis de cor me chamam a atenção de uma maneira diferente. São tão coloridos e tão diversos. Imagino aquilo como a representação do que todos nós somos. Embora tenhamos estruturas semelhantes, cada um tem suas características de destaque, tanto por dentro, como por fora. A cada detalhe de nossa personalidade e a cada história que vivemos, trazemos mais elementos para fazer nossa cor ainda mais distinta do outro. Essa diversidade de lápis em cores e tamanhos é o que me parece tão humano. 

E estamos por aí, fora de nossas caixas, rabiscando o mundo ao nosso redor. Deixamos nossas marcas em todos os lugares que passamos, ás vezes reconhecidos pelos traços marcantes, ás vezes como apenas mais um lápis a pintar. Por vezes nos unimos e pintamos juntos, misturamos nossas cores e traços. Há também os momentos em que optamos por tornar o mundo monocromático, aliás, opção essa que nos últimos tempos é a que mais nos convence. Triste. A diversidade das cores fica ameaçada.

Mas o que mais me intriga é quem escreve com todos esses lápis? E como criou tantos assim? Sujeito criativo. E ainda consegue tantos ao mesmo tempo. Eu tenho o meu palpite de quem é o pintor. Mas prefiro deixar para você imaginar quem ele é. Você tem um palpite?

Foto de Waldson Dias

03/09/2010

Sonic Unleashed

 
 
Logo que fiz a aquisição de um PlayStation 2 tratei de comprar alguns jogos interessantes para garantir a diversão. Isso porque o jogo "brinde" que veio junto com o console era "The Dog Island", um dos jogos mais bestas da galáxia. Enfim, como referência, recorri ao ouriço que me acompanhou durante minha infância, enquanto eu jogava meu Mega Drive. Poucos foram os jogos do Sonic lançados para PS2, então optei por adquirir o último lançamento: Sonic Unleashed. O jogo chama a atenção pela presença de um protagonista desconhecido ao lado de Sonic. Durante a própria tela de apresentação do jogo há um filminho que explica a origem do tal personagem, bem como a história do próprio jogo.

Tentando interromper mais um plano do Dr. Eggman, Sonic invade a base aérea do cientista e inicia uma batalha com seus capangas robos. Como era de se esperar o ouriço destrói as máquinas de Eggman e após se tornar o Super Sonic inicia uma perseguição para finalizar o vilão. No entanto, tudo não passava de um plano do cientista gorducho para atrair Sonic até uma armadilha. Eggman planeja partir o planeta em pedaços para liberar a força da lendária criatura Dark Gaia, aprisonada no núcleo do planeta por milhões de anos. Prendendo Sonic em uma sala especial, Eggman ativa uma enorme arma e utiliza como combustível o poder das Esmeraldas do Caos. Durante a reação, um raio é disparado e o planeta é partido em pedaços. Sonic. que sofre uma estranha mutação e se torna Werehog,  é despejado para o espaço e aí temos início da aventura.

A mutação sofrida pelo ouriço no início do jogo se revela uma transformação pela ausência de luz. Ou seja, durante o dia Sonic é o mesmo ouriço azul de sempre e a noite se torna Werehog. Lembrou-se de uma história semelhante? Qualquer semelhança com o famoso Lobisomem é mera certeza de paródia. Enfim, o objetivo principal do jogo é colocar o planeta em seu lugar, restaurando o poder das Esmeraldas, antes que Dark Gaia desperte definitivamente e utilize seus poderes a favor de Eggman.

Misturando a jogabilidade 3D e o clássico 2D, Sonic Unleashed possui fases interessantes e desafiadoras, um enredo bacana e diversão absolutamente garantida. Eu pelo menos gostei demais do jogo. É uma das raras oportunidades de se unir elementos clássicos/nostálgicos, com a tecnologia dos "novos" videogames de maneira harmoniosa. Perceba que eu acompanhei as novas tecnologias em devagar e atrasado... mas antes tarde do que nunca.